O carnaval 2011, em Iguape, expressou muita energia. Energia da arte, da folia, da organização, da história, do entusiasmo, da felicidade...Os cinco dias de folia fez do Centro Histórico um espaço de trocas. As escolas e os blocos carnalavescos davam o tom e o público retribuía com os movimentos característicos: trocava-se a energia com o ritmo da bateria.
Em terra de Bom Jesus; o profano e o sagrado utilizam o mesmo espaço para se manifestarem. Embora tenham objetivos opostos, uma realidade pode-se dizer que é comum entre ambos: o compartilhamento de energias nas ruas do Centro Histórico.
Tanto o aspecto celebrativo, que advém da festa do Bom Jesus, que ocorre na Brasílica e no seu entorno, como da folia carnavalesca, propiciam reflexões.
Do ponto de vista religioso, a Festa do Bom Jesus de Iguape é um momento que faz do Centro Histórico um espaço de fé e partilha proporcionando aos fies energias para vida e para colocarem em pratica em suas comunidades. Assim, espera-se.
E do ponto de vista carnavalesco? Como essa energia é colocada em prática? Quais reflexões os temas das escolas e blocos carnavalescos trazem?
No caso do carnaval, esse ano, Iguape recebeu a homenagem da Escola União Imperial de Santos. O enredo tinha como tema a Cultura Caiçara. “... Sou caiçara, do peixe com farinha...”.
Uma possível reflexão dessa temática diz respeito à valorização do caiçara. O caiçara que resulta da confluência indígena, negra e européia, na década de 1970 foi definido, por alguns dicionários, como vagabundo. Mas, de lá para cá, lideranças de comunidades tradicionais nacionais tem atuado insistentemente, a nível de política nacional, para que sua identidade seja, de fato, valorizada e respeitada pela política de estado. Hoje os dicionários já definem os caiçaras como moradores de beira de praia e o enredo da Escola de Samba de Santos, embora ainda o associe “vida à toa” – trecho do enredo - é razoável dizer que esse esforço tem a haver com a valorização da nossa cultura.
Nesse sentido, a prefeitura de Iguape esta de parabéns pela organização, visto que o carnaval da cidade é tido, por alguns, como o melhor do Vale do Ribeira.
No entanto, é necessário que essa energia produzida no Centro Histórico, dissipe para as comunidades tradicionais caiçaras para que lá, onde é produzida a farinha de mandioca, onde é defumado o peixe, onde é feito moqueca de marisco, a paçoca de carne seca... Seja valorizada e preservada como essência desse saber.
Para tanto, é imprescindível que um pouco dessa energia seja destinada a reflexão no que diz respeito à questão da expansão do turismo e do aumento das áreas de reserva natural em nosso município.
É preciso que olhemos de forma solucionadora para o turismo que chega de forma desorganizada e vai introduzindo valores urbanos que atuam na inversão dos costumes causando a perda da identidade caiçara.
Também é necessário que olhemos para a questão do território caiçara. As restrições ambientais extirparam o direito do caiçara em usar a sua terra para plantar mandioca e fazer a farinha.
Se não usarmos as energias como as que são trocadas na folia carnavalesca, principalmente, para que se solucione a questão do território caiçara de modo que ele possa fazer roça de mandioca, de arroz, pescar, dançar fandango na comunidade de origem, ou seja, viver em seu habit natural, em breve essas comunidades desaparecerão.
Existe um projeto de ambientalistas em parceria com o BID para realocar as comunidades da Juréia. Se não destinarmos energias para discutirmos na base essa ideia de “limpeza ética”, correremos o risco de viver sentido saudade de comer peixe com farinha e quem sabe, viver mesmo á toa.
Paulo Cesar Franco
Integrante da AJJ
Esse texto foi enviado por um amigo querido, o professor Paulo Cesar Franco, que é um digno defensor da cultura caiçara do Vale do Ribeira e integrante da Associação dos Jovens da Juréia, a qual representa a voz de uma comunidade verdadeiramente tradicional.
Valeu, Paulinho!!